quarta-feira, março 08, 2006

pesadelos

não há silêncio
pelo contrário - é verão
os líquidos gordurosos do seu corpo se confundem
com as gotas de respiração que anuviam as janelas
espera
há alguma fascinação nesse processo
como tirar cera de certas protuberâncias corpóreas
como escrever cravos
como espremer gente
(e lembrar e lembrar)
é verão. mas isso ainda não diz nada
você suspira
medonha
no lençol as gotas do seu suor já deixaram marcas
mas não há mais marcas
- apenas a umidade gordurosa dos toques –
de repente
nota o barulho e o movimento de um ventilador de teto
insistente perniciosamente
insistente
e totalmente necessário
não há silêncio
pelo contrário
– é verão.

Bárbara Nunes (2006)

7 comentários:

PHYLOS disse...

Barbara, obrigado pela visita. Olha, coloquei muitos textos no net, mas surpreendi algumas pessoas copiando textos sem minha autorização. Então, resolvi editar um livro com meus textos e também algumas fotos. O livro está à venda em minha livraria (www.livrariaphylos.com.br) por R$ 12,00. Mas se vc estiver dura, entra lá, compra que te mando 1 de presente. O livro tem o titulo de "Soldado à beira da fuga" e uso este pseudônimo: Phylos.
Leio de tudo um pouco. Terminei ontem um livro que simplesmente me descontruiu, me deixou com um sentimento estranho, por um lado achando o livro fantástico, por outro lado melancolico porque é uma tragédia, com gosto de fel. O livro chama-se "A bela da tarde" (Belle de Jour) de Joseph Kessel. É a estória de uma mulher casada, de classe media, bela e jovem, que se sente ataida por homens brutos, sujos, por meros operários e ela começa a se prostituir num "rendez-vouz". E ela afirma amar o marido (?), mas não vou contar tudo não porque vc pode um dia lê-lo e não vou estragar.

PHYLOS disse...

Se eu tivesse que falar do poema, teria que citar o
dia abundante, as formas puras e precisas, a
evocação das lágrimas, o pulsar das esferas.
A paixão enroscada nas escadas do riso, a tarde
incerta no rosto acuado do homem.
Citaria a flor da primavera coesa, a queda leviana do
joio colhido, a mutilação do homem e suas formas
irrisórias, o ir sem saber para onde, as estradas
pintadas através da vindima, a colheita feita
por mãos aflitas.
Se eu falasse sobre o poema teria que cantar a rua e
suas praças de velhos, suas casas carcomidas e varais
repletos de roupas, escolas e crianças correndo
atrás de uma bola, alguns pés de manjericão,
viagens de além-mar.
Teria que falar sobre música, sobre bicicletas e jogos,
sobre mulheres indiferentes e colchões repletos de
púrpura insônia, da chuva precipitando-se sobre os
homens de hoje, arrastados pelos de ontem e
nunca chegados aqui.
Se eu tivesse que falar do poema falaria sobre esta
angústia incessante, essa eterna busca de morrer que
leva o homem a ter, sem ser levado a olhar-se, sobre
a falácia do riso falso, da noite preciosa e subjugada
pelos tiros roucos de homens desesperados.
Teria que falar das esquinas pesadas por ferro e
sangue, por quem se faz de mudo por não ter o que
falar, pelas vidraças opacas.
Teria que jogar o poema dentro do liquidificador e
nele criar metáforas de fome, líricas misérias, porque
o poema não mata a fome dos que são últimos ou
primeiros. Teria que criar labaredas intensas nas
veias do poeta magro e de óculos, que escreve, mas
não entende, que escreve, mas não vende.
O poema teria que citar os filamentos das palavras
encardidas, jogadas sobre os ombros dos pobres de
espírito, dos dias encobertos pelo riso escuro e louco,
além do canto da mesa vazia. Teria que citar as
expressões fistuladas sobre o balcão da vida e sobre
ele morrer diariamente, sem nada além do que rir.
Não poderia deixar de lado o brilho profundamente
largado no ventre da mulher, campina onde residem
aqueles que não se queixam, onde o fruto não se
desfez, onde a abstinência é santa, assim como
é santa sua ira,
Onde fogos queimam as entranhas da criança de
colo fazendo-se de homem, querendo voar fagulhas
e preso ao chão, apenas excremento.
O poema não poderia esquecer a pista das cruzes,
dos feriados arrastados pelos séculos sem
complacência, do sangue jorrando por guerras e a
valorização, cada vez mais reles, do dinheiro
e das ações da bolsa.
Falaria das pessoas mudas e apáticas voltando
para casa.
Falaria das brigas quixotescas, velhos jogando
dominós, auditórios calados, a dimensão da água que
nos inunda.
Se eu tivesse que falar do poema não falaria sobre o
mar, porque o mar não nos pertence nem nos inunda, o mar é vôo rasante e filho do espírito e não
vivemos para o mar, vivemos para a terra, porque
somos pó e ao pó retornaremos, vazios de mar.
Mas eu falaria do céu, desse céu que quase não
vemos, dessa cor rubro-negra sentida em cores
De Luxe sobre as plantas, as casas despidas, esse
céu onde Elias foi, onde Gagárin foi e riu-se,
tamanha a sua vacuidade.
Sim, desse céu eu falaria, porque é imenso
e só, é fugidio e reluzente e só.
É um céu de nuvens carnavalescas onde os homens
olham e anseiam, mas não conseguem alcançá-lo
porque estão sós.
Se eu tivesse que falar do poema soltaria os
Cavaleiros do Apocalipse e soaria o som dos
exércitos, Armagedom de ossos.
O homem seria meu fim, nunca o meio.
O homem se absorveria no poema e o poema
seria choro de palavras, jamais terminadas,
desde o início das fatalidades.

PHYLOS disse...

É preciso fazer um poema que diga:
“Décadas se passaram antes que meus
olhos vissem a luz.
Grotescas sombras me habitaram.
Desleixado me guardei sobre a relva
Entre os filhos do barro”.
Há de se dizer um poema como música
Não tocada, daquelas que se prende
Em nosso estômago, nosso peito e não larga:
“Penumbras foram pintadas
na orla do teu vestido
para cobrir teu rubor”.
E o poema será como uma ovelha
Que reconhece a voz do seu pastor.

PHYLOS disse...

Espera-se um milagre sob esse céu de pérola.
A tarde adianta-se no horário de verão,
Aguarda-se um sinal nas placas verdes de trânsito
Que defina e estabeleça o poder de Deus.
Nada há em particular que distinga pálidos rostos.
Luzes não se acendem.
Um incerto mal-estar me dita horas.
Onde está o dicionário do tempo?
Fictícias flores enfeitam muros,
O homem sou eu, mas onde o turvo rio deságua?
Aguardo uma resposta
Meu pai, com urgência e amor.

PHYLOS disse...

A claridade do sonho
Desfaz-se na tarde
Ironia do ocidente.
Na claridade sobrevive
Deus,
Ponta de cores
Assombrosos partos.
Densa
A claridade vaza
Reinos quânticos
Príncipes.
Flores:
Claridade somos
Porão sombrio
Onde Deus não planta.

PHYLOS disse...

Barbara, tomei a liberdade de inserir aqui alguns textos que estão no livro. Eles estavam no blog, mas fiquei temeroso que pessoas não autorizadas os copiassem, como aconteceu uma vez. É óbvio que não são nenhuma obra-prima, mas são meus, são como filhos. Abraço.

PHYLOS disse...

Se vc procurar algo do Philip K. Dick, procure ler "O homem do Castelo Alto" que é um clássico. Ele imagina um mundo onde a Alemanha nazista ganhou a guerra e domina o mundo. Os Estados Unidos são administrados por um general alemão. Mas existe um revolucionário, "o homem do castelo alto" que escreve um livro que é proibido pelos nazistas, onde o escritor imagina um mundo onde a Alemanha perdeu a guerra. Gostou da sinopse? Esse Philip K. Dick (dê busca na web sobre ele) escreveu, entre outros: "Blade Runner - o caçador de androides", "O vingador do futuro", "O pagamento", e tenho certeza que houve um plágio porque a estoria é a mesma, "O homem mais importante do mundo", de onde acho que tiraram "O show de Truman". Morreu de overdose mister K. Dick.